.
Do eremitário da esquina
Talvez se possa presumir
Que a rua toda ali termina
Porque cansou de resistir.
.
É tudo ermo, quieto e ermo
Como cantigas de embalo;
Que banha as faces do enfermo
E assim crê que vá salva-lo.
.
E é nesta mesma quietude
Que para a rua sobrevém
A mesma falta de sáude
Banhando as faces que ela tem.
.
FTO
28 de fev. de 2011
MOCHILAS E MOCASSINS
.
Suave é a neve que nos banha
Nas travessias da manhã,
Nos picos altos da montanha,
Nos caracóis de linho e lã.
.
O sol não coube na mochila
Na velha mente ainda medra
A paz esparsa e tranquila
De cada ramo, galho e pedra
.
E é neste fim de cordilheira
Que o velho corpo encontra paz
A paz que faz da vida inteira
Transparecer-nos tão fugaz.
.
FTO
Suave é a neve que nos banha
Nas travessias da manhã,
Nos picos altos da montanha,
Nos caracóis de linho e lã.
.
O sol não coube na mochila
Na velha mente ainda medra
A paz esparsa e tranquila
De cada ramo, galho e pedra
.
E é neste fim de cordilheira
Que o velho corpo encontra paz
A paz que faz da vida inteira
Transparecer-nos tão fugaz.
.
FTO
26 de fev. de 2011
A MIM DISSERAM QUE CHOVEU
26 de fev. de 2011
.
A mim disseram que choveu
Não pude ver nem percebi,
Pois nuvens frias como eu
Criaram a chuva que não vi.
Porém não sei se choveriam,
Por ignorar como se dê,
E que estas nuvens deveriam
Chover somente a quem as vê.
Mas pode ser que nem me importe
Porque enfim não vou saber
Pois sou apenas um transporte
Só fiz-me nuvem pra chover.
.
FTO
A mim disseram que choveu
Não pude ver nem percebi,
Pois nuvens frias como eu
Criaram a chuva que não vi.
Porém não sei se choveriam,
Por ignorar como se dê,
E que estas nuvens deveriam
Chover somente a quem as vê.
Mas pode ser que nem me importe
Porque enfim não vou saber
Pois sou apenas um transporte
Só fiz-me nuvem pra chover.
.
FTO
BODAS DE CARNE
.
Manhã de pedras, devagar,
Manhã cinzenta, talismã,
Tu és o sol de meu lugar,
Serei lugar toda manhã.
.
Eu e você, na cruz do dia,
Você e eu na mesma dor
Que fez de nós escadaria
Nos descaminhos do amor.
.
Talvez um dia me aconteça
Deu resumir você em mim
Pra que o "nós" desapareça
E assim sejamos "um" enfim.
.
FTO
Manhã de pedras, devagar,
Manhã cinzenta, talismã,
Tu és o sol de meu lugar,
Serei lugar toda manhã.
.
Eu e você, na cruz do dia,
Você e eu na mesma dor
Que fez de nós escadaria
Nos descaminhos do amor.
.
Talvez um dia me aconteça
Deu resumir você em mim
Pra que o "nós" desapareça
E assim sejamos "um" enfim.
.
FTO
23 de fev. de 2011
RIBEIRINHO DAS VOLTAS (CURIAPEBA)
23 de fev. de 2011
.
O rio rumina e a vazante
Faz da corrente rompida
Um objeto cortante
Que tira a água da vida.
.
E num caudal que flameja
O veio grita e derrama
Na foz inundada e despeja
A viscosidade da lama.
.
E o ribeirão permanece
Ouvindo o rio dizer:
Palavra ouvida se esquece
Falar pra dentro é saber.
.
O rio rumina e a vazante
Faz da corrente rompida
Um objeto cortante
Que tira a água da vida.
.
E num caudal que flameja
O veio grita e derrama
Na foz inundada e despeja
A viscosidade da lama.
.
E o ribeirão permanece
Ouvindo o rio dizer:
Palavra ouvida se esquece
Falar pra dentro é saber.
.
FTO
O CHARCO DA CASA VELHA
.
É esta extensa repetição
É que me faz reformular
Das palavras que dirão
Quando alguém as perguntar.
.
O que sou e o que pareço?
O que fiz do meu espaço?
E porque eu não me esqueço,
De ser tudo que não faço?
.
Tantas peguntas devem ter
As respostas que objetem,
O que não posso é entender
Porque tanto se repetem.
.
É esta extensa repetição
É que me faz reformular
Das palavras que dirão
Quando alguém as perguntar.
.
O que sou e o que pareço?
O que fiz do meu espaço?
E porque eu não me esqueço,
De ser tudo que não faço?
.
Tantas peguntas devem ter
As respostas que objetem,
O que não posso é entender
Porque tanto se repetem.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
ITAOCA DE IMBIRA
.
Sorve o silencio, degusta
O resto parvo da dor,
Pois afinal não te custa
Fingir aquilo que for.
.
Sinta este nada observe-o
Pois ele mesmo levou-te
A rasgar a pele indelevel
Dos finos traços da noite.
.
Sinta o suor, o batuque,
E a agonia fremir,
Para que nada machuque
O sono que não quer vir.
.
Sorve o silencio, degusta
O resto parvo da dor,
Pois afinal não te custa
Fingir aquilo que for.
.
Sinta este nada observe-o
Pois ele mesmo levou-te
A rasgar a pele indelevel
Dos finos traços da noite.
.
Sinta o suor, o batuque,
E a agonia fremir,
Para que nada machuque
O sono que não quer vir.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
A BULA DE THOMAZ
.
Queria sentir outro sentir
Ou a idéia que me fosse
muito além dela existir
Ou daquilo que tornou-se
.
E neste eterno sem sentido
Somente algo se ressalta
É o dualismo pretendido
Onde tudo me faz falta
.
Assim mesmo ainda queria
O olhar-me face a face
Pra entender o que eu seria
Quando tudo me faltasse.
.
Queria sentir outro sentir
Ou a idéia que me fosse
muito além dela existir
Ou daquilo que tornou-se
.
E neste eterno sem sentido
Somente algo se ressalta
É o dualismo pretendido
Onde tudo me faz falta
.
Assim mesmo ainda queria
O olhar-me face a face
Pra entender o que eu seria
Quando tudo me faltasse.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
MONODIÁLOGO
.
Às vezes penso, sei lá,
Em ser outro, de repente,
Tão igual ao que sou já
E assim mesmo diferente.
.
E nesta mesma diferença
De eu ser o que já sou,
Serei nele o que ele pensa
E não o modo que pensou.
.
Talvez assim dessemelhante
Contraditório, louco, enfim,
Irei crer-me o bastante
Pra ser outro mesmo assim.
.
Às vezes penso, sei lá,
Em ser outro, de repente,
Tão igual ao que sou já
E assim mesmo diferente.
.
E nesta mesma diferença
De eu ser o que já sou,
Serei nele o que ele pensa
E não o modo que pensou.
.
Talvez assim dessemelhante
Contraditório, louco, enfim,
Irei crer-me o bastante
Pra ser outro mesmo assim.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
21 de fev. de 2011
E ESTE POEMA
21 de fev. de 2011
.
...e este poema é teu também
Posto que agora que o lês
Concebe formas que ele tem
E até te esqueces quem o fez.
.
O vês tão teu e assim o é
Dele só tenho a autoria;
Um mar revolto sem maré
Que fez de um risco poesia.
.
Mas não foi feito para ti
Nem para quem o possa ler
Pois eu apenas o escrevi
Porque não pude me conter.
.
FTO
...e este poema é teu também
Posto que agora que o lês
Concebe formas que ele tem
E até te esqueces quem o fez.
.
O vês tão teu e assim o é
Dele só tenho a autoria;
Um mar revolto sem maré
Que fez de um risco poesia.
.
Mas não foi feito para ti
Nem para quem o possa ler
Pois eu apenas o escrevi
Porque não pude me conter.
.
FTO
DA FORJA AO VENTRE
.
Quem me inventou talvez soubesse
Só não me disse que sabia
Que algo em mim sempre anoitece
Pelas manhãs, a cada dia.
.
Não quis dizer-me ou se esqueceu
Porque perdido noutro afã
Fez tudo em mim não ser tão meu
E fez as noites da manhã.
.
E porque o fez não vou saber
Talvez, por certo, neste dia
Não tinha como me dizer
O que ele mesmo não sabia.
.
FTO
O AMETISTA DE MAGDALENA
.
É somente uma vela com certeza,
Uma vela apenas fria e vaga,
Não foi por mão alguma acesa
Mas hoje, enfim, ela se apaga.
.
É apenas uma vela já sem brio,
Um corpo morto que derrama
Na pele negra do pavio
A derradeira voz da chama.
.
É apenas isso, e nunca mais,
Repetirei o que foi dela,
Pois os motivos são banais
Na existência de uma vela.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
É somente uma vela com certeza,
Uma vela apenas fria e vaga,
Não foi por mão alguma acesa
Mas hoje, enfim, ela se apaga.
.
É apenas uma vela já sem brio,
Um corpo morto que derrama
Na pele negra do pavio
A derradeira voz da chama.
.
É apenas isso, e nunca mais,
Repetirei o que foi dela,
Pois os motivos são banais
Na existência de uma vela.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
QUADRATURA
.
Os meus poemas são de barro,
De uma argila transparente;
Ornamentados como um jarro
Que reterá a água quente.
.
É um vasilhame que destila,
Em gotas brancas de cilício,
As velhas telhas de argila
Pra cumeeira do edifício.
Assim construo minhas frases
Talhando o gosto rarefeito,
De que os poemas são capazes
De serem feitos de outro jeito.
.
FTO
Os meus poemas são de barro,
De uma argila transparente;
Ornamentados como um jarro
Que reterá a água quente.
.
É um vasilhame que destila,
Em gotas brancas de cilício,
As velhas telhas de argila
Pra cumeeira do edifício.
Assim construo minhas frases
Talhando o gosto rarefeito,
De que os poemas são capazes
De serem feitos de outro jeito.
.
FTO
.
INEXPRESSÃO
.
Minha janela é como um olho
Que deixa não transparecer
Nos pregos velhos do ferrolho
Que ela consegue a tudo ver
.
E na cancela que desdobra
Um vulto magro se congela
De uma imagem que ainda sobra
Dela me ver olhando ela.
.
São dobradiças que o vento
A todo tempo faz lembrar
Que o instante é movimento
E esta janela é meu olhar.
.
FTO
Minha janela é como um olho
Que deixa não transparecer
Nos pregos velhos do ferrolho
Que ela consegue a tudo ver
.
E na cancela que desdobra
Um vulto magro se congela
De uma imagem que ainda sobra
Dela me ver olhando ela.
.
São dobradiças que o vento
A todo tempo faz lembrar
Que o instante é movimento
E esta janela é meu olhar.
.
FTO
.
AS REENTRÂNCIAS DA FACE
.
Nenhum silêncio se basta
Nas horas do não dizer,
Pois o não dito se gasta,
Na busca de se manter
.
Assim as velhas respostas
Das coisas que procurei
Se interagem, opostas
A perguntas que já não sei.
.
Eu estive errado, confesso,
E o meu silêncio dirá
Numa palavra, inespresso
Porque ninguém ouvirá.
Nenhum silêncio se basta
Nas horas do não dizer,
Pois o não dito se gasta,
Na busca de se manter
.
Assim as velhas respostas
Das coisas que procurei
Se interagem, opostas
A perguntas que já não sei.
.
Eu estive errado, confesso,
E o meu silêncio dirá
Numa palavra, inespresso
Porque ninguém ouvirá.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
OS DIAS DE INVERNO
.
Vou recomeçar a minha vida
Por um momento não exato
De uma memória esquecida;
Por um bilhete e um sapato.
.
Saber de nada me estranha,
É como alguém sem endereço;
Neve descalça na montanha
E um bilhete sem começo.
.
Saber de tudo, no entanto,
É bem maior que estranheza;
Sapato velho em um canto,
Nenhum bilhete sobre mesa.
.
Vou recomeçar a minha vida
Por um momento não exato
De uma memória esquecida;
Por um bilhete e um sapato.
.
Saber de nada me estranha,
É como alguém sem endereço;
Neve descalça na montanha
E um bilhete sem começo.
.
Saber de tudo, no entanto,
É bem maior que estranheza;
Sapato velho em um canto,
Nenhum bilhete sobre mesa.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
O ADEUS DOS IMPOSSÍVEIS
.
Os pensamentos de cristais
Às vezes perdem-se no vento;
Seguem pra onde não são mais
O que os fez ser pensamento.
.
E o vento os leva, rodopia,
Numa ciranda interminável
Feita de cor e poesia,
De um sentimento imutável.
.
E na ignorada voz suprema,
Desta canção jamais igual,
Ouve-se, ao vento, um poema,
De um pensamento de cristal.
.
Os pensamentos de cristais
Às vezes perdem-se no vento;
Seguem pra onde não são mais
O que os fez ser pensamento.
.
E o vento os leva, rodopia,
Numa ciranda interminável
Feita de cor e poesia,
De um sentimento imutável.
.
E na ignorada voz suprema,
Desta canção jamais igual,
Ouve-se, ao vento, um poema,
De um pensamento de cristal.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
20 de fev. de 2011
E AINDA UM QUÊ
20 de fev. de 2011
.
Num sentido amplo sei,
Que uma coisa diminuta,
Obedece à mesma lei,
Que faz a forma absoluta.
.
É numa tola redundância,
É como o frasco, nada além,
Que resguarda a fragrância,
Do perfume que não tem.
.
E assim tornado obtuso
Diluído em toda parte,
Tudo faz-se tão confuso
E por isso vira arte.
Que uma coisa diminuta,
Obedece à mesma lei,
Que faz a forma absoluta.
.
É numa tola redundância,
É como o frasco, nada além,
Que resguarda a fragrância,
Do perfume que não tem.
.
E assim tornado obtuso
Diluído em toda parte,
Tudo faz-se tão confuso
E por isso vira arte.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
LANTEJOULAS
.
Cada poesia é uma gota,
De chuva torrencial,
Que umedece a telha rota,
E nunca é especial.
.
Pois naquilo que escrevo,
Todo ponto se assemelha
À umidade em relevo,
Que consome cada telha.
.
E a chuva quando para,
No telhado umedecido,
Tem então a mesma cara,
Daquilo que foi escrito.
.
De chuva torrencial,
Que umedece a telha rota,
E nunca é especial.
.
Pois naquilo que escrevo,
Todo ponto se assemelha
À umidade em relevo,
Que consome cada telha.
.
E a chuva quando para,
No telhado umedecido,
Tem então a mesma cara,
Daquilo que foi escrito.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
TROPEL (DESAFORISMO)
.
É a tristeza calada,
Na voz do vento que ouço,
Como angústia cravada,
No fundo do calabouço.
.
Ouvi-la já não me basta,
E o poço fundo somente,
Profundamente se afasta,
E a voz me fica ausente.
.
Se o vento pudesse ouvir,
Eu lhe diria assim...
Pra nunca mais repetir,
As coisas ditas de mim.
Na voz do vento que ouço,
Como angústia cravada,
No fundo do calabouço.
.
Ouvi-la já não me basta,
E o poço fundo somente,
Profundamente se afasta,
E a voz me fica ausente.
.
Se o vento pudesse ouvir,
Eu lhe diria assim...
Pra nunca mais repetir,
As coisas ditas de mim.
.
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)
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