30 de jan. de 2011

ENTRESORTE

30 de jan. de 2011

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Veio um vento na estrada
E levou o que eu tinha
Mas enfim não tinha nada
Só o vento que não vinha
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Desrumei-me no intento
De um jeito entrelaçado
À poeira que era vento,
A um rumo que era errado
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Pois a sorte nunca quis
Encarar de outra maneira
O caminho que eu fiz
Neste vento sem poeira
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Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)

19 de jan. de 2011

DE AGULHAS E LINHAS

19 de jan. de 2011
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Uma mulher formou-me um dia
(como se o houvera inventado)
De carreteis e linharia
E um pano branco costurado.
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E então assim ela perfez,
Em seus trejeitos maternais,
No denso véu da gravidez,
As minhas formas naturais.
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Mas vendo agora a estrutura
Eu compreendo que estava
Não nos trejeitos da costura
Mas na mulher que costurava.
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FTO

10 de jan. de 2011

SEM IMPORTÂNCIA

10 de jan. de 2011
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Estou errado (e sempre eu
Que finjo coisas que não liga)
Não percebi que entardeceu
Em qualquer rumo que eu siga.
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E embora então me desaponte
Ainda busco a travessia
Que vai levar ao horizonte
Do recomeço em outro dia.
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Mas estou farto desta luta
Desapontado com esta guerra
Que faz daquele que recruta
Mais uma cruz no vão da terra.
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FTO

9 de jan. de 2011

AO NÃO PROSAICO

9 de jan. de 2011
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Meu proselitismo se contradiz
Em minha eterna timidez;
Ela me lembra o que não fiz
E ele o nada que já fez.
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Então não sei se é possível
À coragem desgastada e vã
Fazer do não inteligível
O meu começo de manhã.
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Ventos do sul parecem brisas
Antigos sopros de estação,
Falam de coisas imprecisas
Do que farei e fiz em vão.
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FTO

8 de jan. de 2011

SOMBRAS E CIRCUNSPECTOS

8 de jan. de 2011

CAEM ORVALHOS DE CIMENTO

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Caem orvalhos de cimento
Por sob o véu do entardecer
No frio olhar do firmamento
Que mais parece nada ver.
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Eis o sinal da travessia
Por onde a vida irá passar
Quando chegar o fim do dia
E ouvir-se a noite cavalgar.
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E nesta imensa profusão
Que faz o mundo existir
Penso nas tardes de verão
E um por de sol pra me vestir.
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FTO

RIBEIRINHO DAS VOLTAS

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O rio rumina e a vazante
Faz da corrente rompida
Um objeto cortante
Que tira a água da vida.
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E num caudal que flameja
O veio grita, derrama
E, na foz inundada, despeja
A viscosidade da lama.
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E o ribeirão permanece
Ouvindo o rio dizer:
Palavra ouvida se esquece
Falar pra dentro é saber.
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FTO

TRÊS QUINTOS E MEIO

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As vagas horas de descanso
Caminham tão devagar
Ao ralo golpe do remanso
Do barulho à beira mar
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O sol me evita e eu busco
Na imensa noite que sou
O halo opaco e ofusco
Que nem o sol não evitou.
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Mas eu antevejo, me creia,
Que repousei minha pressa
Em rastros fendidos na areia
Da solidão não expressa.
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FTO

FLERTE CIGANO

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O seu amor me acusou
De um jeito tão normal
De alguém que nunca amou,
Pelo menos não igual.
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E nessa coisa engraçada
Que a gente não quer ver
Por amar de forma errada
Ou fugindo, sem querer.
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Mas a culpa se apressa
E a gente compreende
Só não sabe o que confessa
E não diz o que pretende.
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FTO

A PONTE RECLINADA

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O espelho é um fragmento
Que fugiu à explicação,
Diluiu-se em pensamento
Pois perdeu noutra razão.
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O que mostra da imagem
Não é o mesmo que ela
Mas somente uma linguagem
que no vidro se congela.
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E nas formas que ele insiste
Sei que ou o refletir
De uma cópia que inexiste
Pra que eu possa existir.
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FTO

6 de jan. de 2011

VÃ RAZÃO

6 de jan. de 2011
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Se o meu modo de entender
Tivesse a mesma estrutura
Que faz a noite escurecer
Sem obrigá-la a ser escura.
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Teria eu a mesma crença
Que tem a planta ao crescer
Não sendo nada do que pensa
E nem motivo para o crer.
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Mas meus sentidos acreditam
Que esta crença me atrapalha
Fazem-me ser o que eles fitam
E mesmo assim tudo me falha.
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FTO

VELA ARRIADA NO EPICENTRO

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Estar perdido é não buscar
alguma forma de encontrar-se
É ter em si nenhum lugar
Ser pouco além de um disfarce.
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Nada seguir, ser rumo incerto
Vela apagada em noite escura
É não se ver no que é perto
Pra insistir noutra procura.
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Estar perdido é um segredo,
Vela arriada no epicentro,
É naufragar-se pelo medo
De insistir no mar-a-dentro.
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FTO

5 de jan. de 2011

ESTIGMA

5 de jan. de 2011
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Eu me refiz de um rabisco
De uma idéia que não tenho
Feita de tiras, de um risco
Na tosca forma de um desenho.
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Eu me refiz de um absurdo
De tudo aquilo que quis ser
Tornei-me cego, fiz-me surdo
E assim eu quis me refazer.
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Agora vejo meus retraços
Por onde nada jorra ou flui
Estou sentado em meus braços
Olhando a coisa que não fui.
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FTO

AS FOLHAS CAEM



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As folhas caem no outono...
Vejo a folha que caiu,
Como alguém que tinha sono,
Ou simplesmente dormiu।
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Pois no infindável remanso,
De um tempo não medido,
O outono foi só o balanço,
Para a folha ter dormido।
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E nesta eterna gangorra,
Que brinca de vai e vem,
É provável que ela morra,
E o outono também.
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Francisco e Ana Moura
Trazido de O.T.Velho (Conservatório Íntimo)

SÃO SÓ RESPINGOS...

São só respingos, se aquieta...
É só o tempo de esquecer
Na noite longa, incompleta
Que nada há para entender.
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É só uma sombra escurecida
E não a própria escuridão
Que demarcou-nos toda vida
Que fez de nós demarcação.
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São só respingos... então esquece...
A noite é como uma viúva
Que se perdeu na própria prece
Por isso chora como a chuva.
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FTO

ODE ELEGÍACA

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Já não há nuvens sob o céu
Não há desterro, não há glória,
Somente um grito no papel,
Poeira branca e um véu
Na brasa acesa da memória.
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E na planicie verde e vasta
Tudo tornou-se solidão,
Melancolia, linha gasta
E o negrume que se arrasta
Na imensa dor que os homens são.
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Virei um dia aqui sentar-me,
Só para ver na cor do mar,
O horizonte desenhar-me
Num sobre-tom em que desarme
Minha vontade de chorar.
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FTO

ARTHUR

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Era uma vez um dragão que se chamava,
Qualquer um nome que a gente imaginasse,
Estava em tudo e em tudo se ocultava
Não era nada, nada além de um disfarce.
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Era uma história de um livro que se lê
Só quando a gente é pequeno e desconhece
Que um menino é DRAGÃO porque o crê
E um DRAGÃO é menino que não cresce.
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O tempo passa e tudo isso vira conto
Então dirão que fora apenas inventado
Nada acontece, tudo é ou nasce pronto,
Eu nada sei mas assim me foi contado.
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Francisco e Ana Moura
Dezembro de 2010

RIACHO DOCE

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As claras rondas do dia,
Dos dias que sempre são
A mais suprema elegia
Nas simetrias do chão
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Dos frios raios de inverno
Da madrugada mais vã
Desnuda o leite materno
E acalenta a manhã.
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Em cada flor um buque
Esculpe as formas do cacho
Ser doce é ser sem por que
Nas águas de um riacho.
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No curto espaço da trilha
Cada manhã nos convida
A ser um ponto que brilha
Nas rondas de alguma vida.
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E assim o sempre acontece
Em seu mistério profundo
No homem que amanhece
A cada aurora do mundo.
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Francisco e Ana Moura
Dezembro de 2010